16/08/2008

Texto enviado por e-mail em 06/08/2007 e publicado mediante autorização do autor, Luis Gustavo Cardoso.
Blog do autor: http://eupenseiqueeraela.blogspot.com/

UM CHORO PRO GUINGA
Luiz Gustavo Cardoso

Engenho de Dentro, mata do Rio. O bondinho nós carregamos nos olhos como fumaça da paisagem, coloração em movimento. Do boteco as vozes semialteradas, ma non troppo, as camisas também semiabertas, consolação. Família típica da classe média baixa, era comum ver o filho assobiando valsas de Bid Marçal. Imagino. Um choro pra você, meu amigo cujo amigo observador é um amigo oculto. Do rancho fundo. Ando ouvindo o ensaio, aquele trovador meticuloso falando, você transmudado em elétrons vacilantes, ondas de rádio. Essas notas pungentes do choro hão de tirar do chão os meus pés, fazem coçar as pontas dos dedos, as unhas. As mulheres passando, as noites deitadas sobre o colo das mulheres espelhadas em minha íris, haja foguete, Mané Fogueteiro. De longe, o mar balançando o pêndulo do tempo. Violã ;o solene, amigo do peito esquerdo. Amigo do Aldir, as palavras. E você. Amigo genial, do Villa, e meu. No quintal, do lado de fora, do lado de dentro. Gênio do simples e absurdo. Um choro pro Zé. Um choro pro Guinga.

 
14/12/2007
Texto enviado por e-mail em 30/11/2007 e publicado mediante autorização do autor, Roberto Amorim Becker.

SOBRE "VIA CRUCIS"
Roberto Amorim Becker

"Por aqui não se passa sem que sofra o calor do fogo. Entrai agora e não sejais surdos ao que escutardes lá dentro." (Divina Comédia Humana, Purgatório, canto XXVII - Dante Alighieri)

Meu caro Guinga,

É demasiadamente difícil, em razão da limitação da linguagem e da cultura, descrever com exatidão a reviravolta que se dá dentro da gente quando somos expostos, de súbito e sem a devida preparação, ao contato com a genuína obra de arte. Por isso somos forçados a fazer aproximações. Um redemoinho, talvez, seja a imagem mais precisa desse fenômeno. Desorienta, atordoa, dá pancada. E é justamente nesse impacto, nessa alteração repentina na disposição do espírito - que tanto pode funcionar como um soco na cara ou como um delicado afago de criança - que reside a força da obra de arte. O verdadeiro artista é aquele que consegue, de imediato, somente pela qualidade inerente a seu trabalho, invocar e intensificar o sentimento do espectador. Você - dispensando maiores demonstrações - é um artista no mais puro e exato sentido do termo.
A tua música me pegou desprevenido, me arrebatou. Tudo aconteceu dentro do carro, no trânsito tumultuado do Planalto Central, rumo ao apaziguante lar, ao ouvir durante quarenta e oito minutos a mesma faixa, encantadora, hipnotizante: "Via Crucis". Fui, em alguns minutos e sem aviso prévio, conduzido da opaca vida prosaica aos caminhos torturantes e tortuosos do martírio; de um calafrio inicial e paralisante às lágrimas involuntárias e copiosas; de um sofrimento intenso e constante a um delírio revigorante e prazeroso. Um verdadeiro rito de purificação.
Segui cabisbaixo a longa rota do purgatório, esperando, silente e resignado, os açoites inclementes, impiedosos da canção. Cansaço. Vertigem. A dor é tanta que, após certo grau de intensidade, o corpo passa a ignorá-la. Atinge-se o êxtase. De repente transmuta-se a realidade, e passa a imperar, soberana, a delicadeza. Recompensa. O sacrifício vale a pena. O esforço não é vão. "Nova embarcação..." O cenário muda, as perspectivas se alargam, os horizontes se aproximam.  A felicidade, mesmo que efêmera, irreal, onírica, fantasiosa, retorna e fica à espreita.
Tudo isso se sente na tua "Via Crucis". A representação musical do tema é perfeita. Andamento lento, constante e com poucas variações. O bordão preponderando, grave e indolente, maestro. A voz da Paula Santoro e o teu contracanto, muito mais que harmoniosos. O paralelismo da letra, usando e abusando do simbolismo, em vários momentos enigmática. O arranjo do Carlos Malta, exato, ímpar. A interpretação em si, absorvendo e traduzindo com precisão e sobriedade o sentido religioso da obra. Maravilha, meu caro. Parabéns por dar à luz tão belo e luminoso rebento.
Não sei nem como te agradecer por ter nos presenteado com uma música como essa, verdadeiro elixir de efeito lenitivo instantâneo, doravante guardada no mais delicado lugar do meu relicário. E com um disco como o "Casa de Villa", sem dúvida o melhor acontecimento da década, ou melhor, do século. Minha dívida contigo é grande. O equilíbrio não tem preço.
No "ventre na nação" tem muita gente precisando ouvir-te.
Que te seja concedida a graça de viver duzentos anos.
Um grande e afetuoso abraço.
Completamente refeito, novinho em folha,

        Roberto Becker

P. S. Como já disse o Chico Buarque: "Canta mais!!!"

 
12/11/2007
Matéria publicada blog da filósofa Marcia Tiburi em 31/10/2007 (http://bloglog.globo.com/marciatiburi/)

Pitágoras e Guinga

Falei durante menos de uma hora sobre Pitágoras no Centro Cultural Banco do Brasil. Pitágoras é o misto de lenda e história que inventou o nome FILOSOFIA, que descobriu a harmonia musical, que inventou o teorema sobre a soma dos catetos e o quadrado da hipotenusa que atormentou a infância de alguns. A conversa devia girar em torno de Pitágoras e o instrumentista. Eu falava de Pitágoras (de sua filosofia, não da música, porque eu sou analfabeta musical...), mas a coisa foi melhor do que poderia.
Para qualquer pessoa é sempre uma alegria ver a casa cheia, mais ainda quando se fala de filosofia, assunto que ainda me espanta que encante a tantas pessoas. Mas o melhor de tudo não foi a filosofia e nem Pitágoras, foi o instrumentista. Guinga estava lá ta,bem a contar suas histórias de pessoa e de músico.
Ele tocou duas músicas. Foi emocionante literalmente. Quem conhece um pouco de música sabe o que este homem que começou a gravar depois dos quarenta significa na história da música popular no Brasil. Claro que sua obra é coisa para poucos diante da regressão da audição na qual não cansamos de nos afundar. Não me preocupa tanto até onde irá nosso fôlego com tanta música ruim tocando por aí, mas até onde irá nosso fôlego sem ouvir música como a de Guinga.
Foi um momento belo e sublime ao mesmo tempo, de lucidez e emoção. Agradeço a quem teve a idéia. O Cláudio e a Regina Rosa.

 
10/09/2007
Matéria publicada no Jornal "O Globo" em 09/09/2007
Nobreza Popular
Luís Fernando Veríssimo
Uma das muitas cenas memoráveis do imperdível filme "Brasileirinho", do diretor Mika Kaurismaki, é a do Guinga contando como nasceu a música "Senhorinha", dedicada à sua filha. Depois Zezé Gonzaga canta a música. Quem não se emocionar deve procurar um médico urgentemente porque pode estar morto. "Senhorinha" tem letra de Paulo Cesar Pinheiro e é uma das coisas mais bonitas já feitas no Brasil — e não estou falando só de música. O filme todo é uma exaltação do talento brasileiro,da nossa vocação para a beleza tirada do simples ou, no caso do chorinho, do complicado, mas com um vituosismo natural que parece fácil.
Recomendo não só a quem gosta de música, mas a quem anda contagiado por sorumbatismo de origem psicossomática ou paulista e achando que o Brasil vai acabar na semana que vem. Não é a música que vai nos salvar,claro. Mas passei o filme todo vendo e ouvindo Guinga,o Trio Madeira Brasil, o Paulo Moura,o Yamandu, o Silvério Pontes, a Elza Soares, a Teresa Cristina, a Zezé Gonzaga (e até Ademilde Fonseca!) e pensando: é essa a nossa elite. Essa é a nossa nobreza popular, a que representa o melhor que nós somos. O Oposto do patriciado que confunde qualquer ameaça ao seu domínio com o fim do mundo.
Uma das alegrias que nos dá o filme é constatar que o chorinho, longe de estar acabando, está se revitalizando. Tem garotada aprendendo choro hoje com nunca antes. Substitua-se o choro pelo Brasil que não tem nojo de si mesmo e pronto: a esperança vem por aí. Parafraseando Chico Buarque: contra desânimo, desilusão, dispnéia, o trombone do Zé da Véia.
 
18/03/2007
Matéria produzida Thales Ramos e Emiliano Mello, com foto de Bruno Villas Bôas para o blog "O Samba".
Link: http://osamba.wordpress.com/2007/03/22/41/

O blog "O Samba" entrevistou o músico e compositor Guinga no Leblon, em 18 de março de 2007. Ele acabara de lançar seu CD “Casa de Villa” e preparava-se para uma série de shows no Brasil e no exterior.

Guinga, você tocou com Cartola. Como ele era?
- Cartola era um cara sério, educado, respeitoso, cumpridor dos deveres, altamente profissional, humilde. E um gênio!

Como você o conheceu?
- Em 1973 existia um teatro aqui em Ipanema que se chamava Teatro Santa Rosa. Nessa época, eu fui contratarado para ser músico num show chamado “Vem quem tem, vem quem não tem”, que reunia Joel do Bandolim, João Nogueira e o Roberto Nascimento, um compositor brasileiro que agora está fora do Brasil. Eu nem sabia que o Cartola participava do show. Logo no primeiro ensaio, ele apareceu com o seu violãozinho e começamos a tocar. Eu aprendi as músicas dele e comecei a acompanhá-lo ao violão durante o espetáculo. Foram três canções, “Acontece” era uma delas: “acontece que nosso amor…”[cantarola]. Ele adorou o acompanhamento.

E como foi essa convivência?
- Ficamos em cartaz durante dois meses, nós passávamos os dias juntos. Ele conversava muito comigo. Um dia, me convidou para ir na sua casa para comer um frango que a Dona Zica havia feito. Eu fui com a Fátima, minha mulher, que na época era minha namorada.Ficamos amigos mesmo, de eu frenquentar a sua casa. Quando o ele ficou doente, foi morar em Jacarepaguá e eu o visitei umas duas vezes. Eu convivi com o Cartola durante uns quatro anos.

Depois de “Vem quem tem, vem quem não tem”, vocês voltaram a trabalhar juntos?
- Sim, nós gravamos juntos. Sabe o disco que tem o Cartola com a Dona Zica na capa, “O mundo é um moinho”? Eu participei desse disco e da gravação original da música que dá nome ao LP.

E a sua amizade com o Nelson Cavaquinho?
- O Nelson eu tive uma intimidade, assim, que beirava a esculhambação. A gente saía pela madrugada, ele ficava embriagado, ia ver as prostitutas. Ia nos bares de travestis ver shows, tocava músicas junto com os travestis… Quando amanhecia, o dia claro, ele queria ir para a praça Tiradentes. Tinha um botequim lá onde ele ficava bebendo até o meio-dia.

Virado?
- Viradaço. Aí, meio-dia a gente levava ele pra casa, lá na Avenida Brasil, na entrada da Dutra, no Jardim América. Ele morava numa vila.

Quem mais andava com vocês?
- Paulinho Pinheiro (Paulo César Pinheiro), João Nogueira, Beth Carvalho, Eduardo Gudin de São Paulo e o ator Carlos Vereza. Carlinhos Vereza era muito amigo do Nelson. O Carlinhos Vergueiro também. Mas aqui no Rio saía muito eu, o Nelson, Paulinho Pinheiro e João Nogueira. Nós quatro juntos. Toda segunda-feira a gente se encontrava no Teatro Opinião. Domingo, às vezes, nós iamos almoçar na casa dele. Nelson era engraçado pra caramba. Era a maior figura.

No Programa Ensaio, da TV Cultura, você disse que o Nelson Cavaquinho nunca te ouviu tocar…
- Ele pedia para eu tocar e levantava, ia ver as plantas. Ele era autocentrado (risos). Ele se referia a si próprio na terceira pessoa, “o Nelson”. Quando chegava uma mulher ele dizia: “minha filha não tenha medo do Nelson”. (risos)

Você tocou também com o João Nogueira…
- Eu comecei a tocar com Alaíde Costa, depois Beth Carvalho, João Nogueira, Clara Nunes e Cartola. Aí eu enjoei. Vi que não dava dinheiro e me formei em odontologia. Tocava para me sustentar, né cara? Tocava para comprar meus materiais de odontologia, que eram caros na época. Eu vim de uma família pobre.

Então isso tudo foi antes de entrar para a faculdade?
- Isso. Eu comecei a tocar com 17 anos. Toquei com Oberdan Magalhães, Hélio Delmiro e com a Banda Black Rio algumas vezes.

A gente observa que não há muitos sambas na sua discografia. Por quê?
- Eu tenho uns quatro ou cinco. Nunca fui sambista, mas acho que os sambas que fiz saíram direito. Eu acho que tenho medo, tenho respeito. Mas o samba está na minha alma.
Veja, eu era muito amigo do Candeia, ia na casa dele todo dia. Quer ver uma coisa engraçada? Quando se fala em raiz, sempre citam o seu nome, não é? Mas você sabe o que o Candeia gostava muito de ouvir? Aquela “Take five”, do Dave Brubeck. Ele era maluco por essa música. O cara pode ter um estilo, mas ele é influenciado por tudo que está aí. Você não pode restringir seu universo.

Por outro lado, notamos uma presença bem forte do choro na sua obra.
- Pois é. Tenho mais intimidade com os choros, ouvi muito Pixinguinha, Ernesto Nazareth, Jacob do Bandolim….

E por falar nisso, conta como foi o seu encontro com o Pixinguinha.
- Eu tinha 16 anos. Encontrei o Pixinguinha numa padaria, me aproximei e disse: “eu conheço o senhor”. Aí ele me respondeu, olhando meio “assim”. Então eu cantarolei uma música do seu repertório e ele ficou impressionado e, no fim, tirou um bolo de papel embrulhado de dentro do bolso e me mostrou. Sabe o que era? Um monte de letras que o pessoal na rua dava para ele musicar. “Rosa” foi um popular que deu pra ele. Já pensou se ele não fosse uma pessoa humilde? A gente estaria privado de uma obra-prima como essa.

Vamos falar sobre o novo disco. “Casa de Villa” tem sido definido como um disco mais nu. Você concorda com isso?
- No “Casa de Villa” eu priorizei mais o violão, tirei um pouco do excesso das cordas. Nesse disco você ouve melhor os acordes do violão, sem muita interferência de outros instrumentos. Optei por uma gravação que ressaltasse justamente isso, minha maneira de tocar. É, de certa forma, um disco mais minimalista, mais cru. Claro que tem também sopro, mas tudo na medida.

É uma tentativa de se aproximar mais do Guinga ao vivo?
- Justamente. Procurei trazer para o disco como sou ao vivo. Nem sempre é possível levar uma orquestra inteira para tocar comigo nos shows.

“Baião de Lacan” e “Choro pro Zé”, por exemplo, são músicas que você toca nos shows e não canta, fica só no instrumental. Neste álbum você canta em oito faixas. No show você também cantará?
- “Baião de Lacan” e “Choro pro Zé” são músicas que fiz, mas que são de outro tom. Agora não. Neste disco eu fiz músicas para eu cantar. Eu to investindo mais no cantor agora também. Eu sempre fui taxado como um compositor instrumental, isso não é verdade.

Como é o seu processo criativo?
- O processo de criação é comum, não tem nada demais. Eu faço as músicas e mando para os letristas. Eu acho mais fácil assim. Quando eu comecei a compor, muito jovem ainda, eu comecei a musicar letra, mas vi que aquilo dava muito trabalho. Eu não sei fazer isso, acho muito difícil. Para mim, é mais fácil fazer a música, a melodia, primeiro. Se eu posso ter menos trabalho, por que eu vou trabalhar mais, não é verdade? (risos)

Desde o “Noturno Cobacabana” você tem investido na relação com novos compositores como Mauro Aguiar, Simone Guimarães e Francisco Bosco (filho de João Bosco). Como tem sido essa relação com esse pessoal da nova geração?
- Muito boa. No “Casa de Villa” eu retomo a parceria com a Simone e o Mauro. O caso do Francisco Bosco foi engraçado. Um dia eu estava caminhando com o pai dele na praia e ele me disse que o garoto estava escrevendo. Aí cheguei em casa e fiz a música. À noite estava pronta “Noturno Copacabana”, que deu nome ao disco. Tem também o Thiago Amud e o Edu Kneip. O Edu era meu paciente, agora é meu parceiro.

Então, às vezes, acontecia de o pessoal aparecer querendo fazer tratamento e, “do nada”, oferecer uma parceria?
- Acontecia, sim! Chegavam com desculpa de querer fazer entrevista pra faculdade e, quando eu via, já estavam sentados com o violão na mão e tal. (risos)

No “Casa de Villa” você compôs a letra de “Maviosa”. Seria o início de um Guinga letrista?
- Ah, aquilo foi uma brincadeira… Eu não sou letrista… Vocês gostaram da música? Não sei… quem sabe, quem sabe… (rindo e abrindo os braços com cara de gaiato).

Olhando a sua agenda de shows, a gente nota você toca muito no exterior. Você chega a trabalhar mais lá fora do que no Brasil?
- Hoje eu acho que meio a meio. Já conheci a Europa quase toda. Só na Itália eu fiz 17 turnês, conheço a Itália de ponta a ponta. Agora estou com um empresário na Europa e um nos EUA. Aliás, dois na Europa. Eu vou aonde o público me quer. Eu gosto de tocar, de trabalhar. Aonde tiver público que aprecie o meu trabalho, eu vou. Mês que vem, por exemplo, eu irei participar do Festival de Tunis, na Tunísia.

Falando em Itália, como foi a repercussão do disco “Graffiando Vento”, com o clarinetista italiano Gabrielle Mirabassi no país?
- Muito boa. Os italianos gostam muito da minha música. Esse disco eu fiz há dois anos e só foi lançado na Europa. Pouca gente conhece no Brasil. Daqui a alguns meses será lançado o segundo com o Gabrielle, uma espécie de “Graffiando Vento” 2. O disco já está gravado, só estamos esperando os acertos finais. A “Biscoito Fino”, minha atual gravadora, deve lançá-lo junto com o primeiro aqui no Brasil.

Algum outro projeto no exterior?
- Bom, há dois jornalistas espanhois querendo produzir o meu primeiro dvd. Ainda estamos no começo, estamos conversando, acertando os detalhes do projeto. No momento é o que eu posso adiantar para vocês.

David Byrne, do Talking Heads, declarou que ficou muito impressionado com o seu show de estréia em Nova Iorque, no Joe's Pub, em 2005. Ele notou, porém, que havia poucos brasileiros na platéia. Como foi tocar pela primeira vez na cidade?
- O show foi muito bom, o Joe's Pub é um lugar bem legal para tocar. Na platéia só tinha uma brasileira, é verdade. Era a Lúcia Guimarães, jornalista do Manhattan Connection. Na verdade isso é até bom. Eu ir para os EUA e só ter brasileiro na platéia não é muita vantagem. Eu sou brasileiro, eu moro aqui. Já para os americanos é mais difícil me ver tocar. E eu quero que eles conheçam a minha música, a minha obra.

A que você atribui esse aparente “desinteresse” dos brasileiros a respeito de um compositor importante como você?
- À falta de informação.

Você tocou em Los Angeles também, não foi?
- Toquei com a Filarmônica de Los Angeles. Veja só, eu nunca recebi um convite para tocar com a Orquestra Sinfonica Brasileira. Mas, veja você, fui convidado para tocar com a Filarmônica de Los Angeles… Também toquei com a de Londres..

E o que a crítica achou?
- Cara, não vou nem te dizer. Não quero ser cabotino, sabe? Ficar falando de mim mesmo. Depois procura na internet. Veja a crítica do “Los Angeles Times”, por exemplo.

Como músico, qual é a sua relação com o cinema e a TV? Você é muito procurado para fazer trilhas sonoras, sendo um compositor que navega por varios estilos de musicas e com uma forte raiz brasileira?
- Tem uma musica minha na trilha de “Caramuru, O Rei do Brasil”. Fora isso, não tenho mais nada nesse sentido. Não sou chamado para fazer trilhas”. Eu gostaria muito, eu me interesso por esse tipo de trabalho também.

Você é um compositor genuinamente carioca e canta o Rio de Janeiro em todas as suas canções. No entando, quase não o vemos tocar na cidade. Por que será?
- O Rio de Janeiro regrediu muito culturalmente. Aqui não há mais espaço para o artista. Eu nunca pisei no Citibank Hall, no Vivo Rio… É muito difícil. Houve uma sucessão de governos desastrosos que não deram apoio à cultura. O futebol do Rio não é mais divulgado fora daqui. Eu estava em Teresina, no Piauí, abri o jornal e não havia uma linha sequer sobre o futebol carioca. Se tem um compositor que é carioca legítimo, sou eu. Nasci em Madureira e morei em Jacarepaguá, Tijuca, Sulacape, Vila Valqueire e agora moro no Leblon. Olha o nome dos meus discos: “Delírio Carioca”, “Suíte Leopoldinha”, “Noturno Copacana”, “Casa de Villa”… Eu amo o Rio mas, ironicamente, aqui é o lugar onde eu menos tenho espaço.

Como você enxerga essa questão cultural e qual a conseqüência disso para a divulgação da sua música?
- Isso passa pelos produtores. A música está nas mãos dos produtores, são eles que decidem o que o público vai ouvir. Tem muita gente em cargo errado por aí. Mas a cultura não tem dono. Vocês estavam falando do Rio, a prefeitura do Rio nunca me chamou para fazer nada. O César maia não me conhece. O presidente Lula parece que não se preocupa com a cultura, só apóia projetos assistencialistas. Ele diz que governa para o povo. Ora, o povo gosta de cultura… Daqui a pouco o Lula vai fazer o “Caverna Família”, o “vale-tigre”, é uma pena.

Conta um pouco sobre essa descoberta da sua música por essa nova geração através da internet; há, inclusive, um myspace em sua homenagem…
- Myspace? O que é isso? Esse troço ajuda? (risos). Rapaz, eu não sei mexer em nada de internet, mas acho muito bom isso. O artista que não tem um site hoje não é ninguém. Eu vendo muitos shows através da minha página, principalmente para o exterior. Eu quero tocar. Eu gosto de tocar. Onde me chamarem eu vou; tanto aqui, quanto lá fora, não tem problema. Mas é claro que eu quero tocar mais aqui no Brasil. Mas deixe estar. O público jovem me adora, cara, me explica isso se eu não toco em rádio? Eu quero é divulgar minha obra. Eu tô aí.

TEXTO POR THALES RAMOS E EMILIANO MELLO. FOTO: BRUNO VILLAS BÔAS

 
09/05/2007
Matéria produzida pela jornalista Áurea Alves para a coluna Carta Brasilis.
Link: http://www.brazilianpress.com/20070509/colunas/cartabrasilis.htm

GUINGA, BRASILEIRO E UNIVERSAL
"Não escrevo dissonante para ser moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é conseqüência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil” Heitor Villa Lobos

Por Áurea Alves


[09.05.2007]
É do começo do século a criação das vilas, casas alinhadas em torno de uma única rua, ou único quintal, muitas vezes de um único proprietário, onde as famílias recém-chegadas, com condições menos sofríveis, se instalavam. Cada qual com sua história, com sua cultura, buscando a adaptação às grandes metrópoles, na luta pela pela sobrevivência. Nesses espaços as diferenças consumar-se-iam conflitos e festas, encontros e desencontros, produzindo o fenômeno cultural urbano. De Hoboken (New Jersey-EUA) ao Brás em São Paulo, passando pela Tijuca, no Rio de Janeiro, essa intimidade, compartilhada na proximidade cotidiana, sempre esteve presente na obra de grandes artistas contemporâneos.

A essa idiossincrasia cotidiana e rica Carlos Althier de Souza Lemos Escobar, o Guinga, dedica as dissonâncias de seu mais recente disco Casa de Villa (Biscoito Fino) , que, coerentemente, grafa no título a homenagem ao compositor brasileiro Heitor Villa Lobos, influência básica de sua obra.

Villa Lobos promoveu a renovação da música erudita brasileira, produzindo uma obra com feições brasileiras, construída a partir das viagens feitas pelo Brasil, momento em que travou contato com a cultura do país. Provocou estranheza, nos anos 1920 e rebatia críticas conservadoras, afirmando que escrevia dissonante porque mergulhara no universo popular brasileiro e isso refletia em sua obra erudita. Sua obra influenciou diversos compositores eruditos e populares, especialmente Tom Jobim.

Neste novo disco, Guinga ratifica essa influência . Desfila composições em que mistura, como é seu costume, ritmos, valsas, samba, xote, samba e jongo, recortes da música popular brasileira que se encadeiam como se descrevessem o movimento de um personagem em meio a sua gente, em meio às conversas das calçadas e do cotidiano das vilas.

Há a despedida, ao estilo nordestino, em Porto de Araújo, a caminhada em Via Crúcis, a chegada descrita no samba Capital Federal. O passeio pela cidade refletido nas panorâmicas Mar de maracanã e Maviosa que descrevem o Rio por seus subúrbios descuidados porém vivos – "rascunho da saudade", diz o seu verso.

A reflexiva Tudo fora de lugar, letra de Aldyr Blanc, uma reflexão sobre o jeito de ser, numa letra ordenada de versos longos, enquadrada numa música que é toda fora do lugar, como os moradores de uma casa de vila.

Este disco traz arranjos excelentes dos quais destacam-se aqueles compostos para as faixas instrumentais. O melhor deles é o feito para o xote Bigshot , ritmo nordestino, cujas dissonâncias ganharam acento mais refinado ainda, com o arranjo jazzístico de Paulo Aragão, com direito ao uso de surdina. Por outro lado, Jongo de compadre, é interpretado só com instrumentos de sopro, diferentemente da tradição da interpretação desse ritmo negro, cuja ênfase é dada por instrumentos de percussão. e na emotiva Comandante Albuquerque (homenagem ao produtor Paulinho Albuquerque, falecido em 2006).

Extremamente bem qualificada neste disco, a obra de Guinga o coloca entre os grandes compositores populares do mundo, que lhe presta reverência em suas apresentações, Compositor ativo, um compositor que não sabe escrever música é aclamado e classificado como genial, nos EUA e na Europa.

No Brasil, não é popular essencialmente por dois aspectos,que se fundem: suas músicas são sofisticadas e beiram a erudição e não cabem no espaço limitado daquilo que deve ser comercializado em massa. Isso significa que a oportunidade de se ter contato com a obra de Carlos Althier Lemos Escobar é acompanhar suas apresentações e ouvir seus discos. Ou localizá-lo em discos de Chico Buarque, Mônica Salmaso e sua primeira grande intérprete, Elis Regina. O ouvinte, de Hoboken ou da Tijuca, estará frente ao maior compositor brasileiro surgido nos últimos vinte anos e o enxergará tão próximo de si. Muito brasileiro e tão universal.•

 
18/03/2007
Matéria produzida por Aquiles Rique Reis, vocalista do MPB4 e autor de O Gogó de Aquiles, ed. A Girafa.
A CASA DA MÚSICA

Ao ouvir Casa de Villa (Biscoito Fino), disco recém-lançado por Guinga, fica a dúvida: será mesmo que são apenas sete as notas musicais? Com seu universo sem limitações, a criação de Guinga não respeita limites. Para ele, dós, rés, mis, fás, sois, lás e sis são trampolins dos quais se vale para mergulhar na profundeza de seu talento.

Para Guinga, o compositor, não basta criar belas frases musicais, há que fazê-las soar como nunca se ouviu igual; e assim ele compõe. Para Guinga, o violonista, não basta inverter belos acordes e dar-lhes ar de modernidade explícita, há que recriá-los com sonoridade compatível com o saber de seu criador; e assim ele toca. À Guinga, o cantor, não satisfaz ver a excelência brotando da alma e de suas mãos de autor, há que participar do banquete servido por este a apaixonados pela música, há que enfrentar as limitações impostas pela dicção imprecisa – compensada pela afinação correta e pela capacidade de emitir notas agudas –, e há que se valer de seu notável senso rítmico.

Casa de Villa tem a poesia-despedida de Paulo César Pinheiro escrita para “Porto de Araújo”: “Por favor, não chora/ Oh mãe/ Que eu tou levando em teu surrão/ De artesã/ Cordão de prata, cruz de ouro/ O teu talismã.” Com arranjo de Carlos Malta, que toca flautas e saxes barítono e soprano, e mais o violão de Marcus Tardelli (do Quarteto Maogami), a simplicidade é tudo. O som do barítono de Malta é tão expressivo quanto lírica é sua flauta “piando” feito o guriatã. Ao final, os sopros se juntam para “apitar”, indicando que o cargueiro zarpou... Magicamente lindo!

Tem Aldir Blanc e sua poesia confessional escrita para “Tudo Fora de Lugar”, só para Guinga cantar com seu violão. O arranjo de Marcus Tardelli esbanja criatividade posta em prática para que a música e a letra tenham espaço para brilhar. Belas!

E tem Edu Kneip: “Mar de Maracanã” e “Via Crucis”, esta com participação especial da ótima Paula Santoro. Com voz poderosamente afinada, ela demonstra que é quando cantada por voz com recursos de grande intérprete que a música de Guinga atinge ainda mais fortemente o coração de quem a ouve.

Casa de Villa , assim com dois “eles” para homenagear Villa Lobos, tem quatro temas instrumentais: “Comendador Albuquerque” é uma homenagem de Guinga a Paulinho Albuquerque, que produziu os primeiros discos de Guinga, foi um “fazedor” musical de extrema criatividade e nos surpreendeu e assustou com sua morte prematura, deixando tanta saudade... Guinga chora pelos dedos o arranjo de Marcus Tardelli, enquanto a imagem do “comendador” sorri à nossa frente. “Jongo de Compadre” (Guinga, Aldir Blanc e Simone Guimarães, ela que fez com Guinga “Capital”, faixa 4 do disco) tem arranjo de Paulo Sérgio Santos, que dá um espetáculo a parte tocando clarinetas, clarone e saxes alto, soprano e tenor e ainda conta também com a tuba de Eliezer Rodrigues. “Villalobiana” (Guinga), arranjo e trompete a cargo de Jessé Sadoc, enquanto Wellington Moura toca o segundo trompete, João Luiz Areias toca trombone, Philip Doyle toca trompa, Popó toca tuba e Guinga toca violão. “Bigshot” (Guinga), com bom arranjo de Paulo Aragão, no qual os sopros são os mesmos de “Villalobiana” (destaque para o solo de trompete de Jessé Sadoc), acrescidos da bateria de Erivelto, da percussão de Bolão, do reco-reco de Bernardo e da zabumba de Durval Pereira.

A música de Guinga é larga – às vezes sinuosa feito estradinha de terra do interior. Música feita de subidas e descidas quase sempre íngremes, mas sempre com pequenas retas para descanso, após tantos volteios. Viaja-se pela aptidão musical de Guinga como se não houvesse compromisso de alcançar o destino final, mas sim sentir cada palmo de estrada percorrido, vendo paisagens surpreendentes a cada curva rodada, a cada lombada saltada. Assim, fazendo da voz seu outro instrumento, ele desmistifica diferenças que dizem haver entre o erudito e o popular.

 

05/03/2007

Matéria publicada no Jornal "Estado de Minas" (01/03/2007 - Ailton Magioli) Clique aqui para baixar a versão PDF.

GUINGA E PAULA SANTORO FAZEM SHOW DE LANÇAMENTO DO SÉTIMO DISCO DO
COMPOSITOR, ‘CASA DE VILLA’, HOMENAGEM A VILLA-LOBOS E AO SUBÚRBIO CARIOCA



Há muito tempo a música brasileira não ouvia autor e intérprete cujas vozes timbrassem com tamanha facilidade quanto Guinga e Paula Santoro. Donos de carreiras solo elogiadas, o compositor carioca e a cantora mineira estréiam promissora parceria nos palcos domingo de manhã, no Museu de Arte da Pampulha, prometendo levar o show inclusive à Europa, antes de registrá-lo em disco. O repertório inteiramente dedicado à obra de Guinga inclui novidades como a canção Via Crucis, da parceria com Edu Kneip, que os dois gravaram em Casa de Villa – o sétimo álbum solo e o primeiro pela Biscoito Fino, que ele aproveita para lançar em Belo Horizonte. Há também raridades, como a canção Alma vazia e o fado Navegante, da parceria com Paulo César Pinheiro, jamais gravados.
Mestre de melodias e harmonias rebuscadas e dono do que ele mesmo classifica de “voz de taboca rachada”, Guinga parece ter encontrado em Paula Santoro a companhia ideal para popularizar canções que Elis Regina – além de Clara Nunes, Miúcha, Fátima Guedes e Leila Pinheiro – já havia cantado e gravado. Paula, por sua vez, chega ao encontro com o compositor com o aval de Tom Jobim, Chico Buarque, Milton Nascimento e Toninho Horta, entre outros mestres que já havia cantado e gravado. “A voz de Paula Santoro tem coração, tem mineiridade”, elogia Guinga, que, além de duetos, acompanha os solos da intérprete com seu violão. Pesquisando o repertório do compositor há cerca de seis meses, Paula garante que Guinga é o carioca mais mineiro que ela já conheceu. “A música dele tem algo de sertão, de Guimarães Rosa”, justifica.
Suburbano criado na zona Oeste do Rio de Janeiro, Guinga resolveu ir fundo nas suas origens ao gravar Casa de Villa, que ele chama de uma humilde homenagem de duplo sentido ao maior compositor das Américas, Heitor Villa-Lobos. “É a casa geminada, de vila, onde eu fui criado e que, na cultura carioca, está ligada ao interior, ao subúrbio”, esclarece. Segundo conta, ao mudar para o primeiro apartamento, aos 24 anos, ele demorou para se acostumar. “O subúrbio que eu conheci não existe mais, foi desmatado e aviltado”, lamenta Guinga, que vê lirismo e beleza peculiares no habitat de grande parte de sua vida. “O meu coração é a casa de vila”, reconhece.
Já a música de Villa-Lobos, segundo ele, tem o poder da cura. “Você ouve as duas primeiras notas e o coração está partido”, garante Guinga, lembrando que Villa-Lobos, que militou entre o erudito e o popular, é o “pai” de Tom Jobim e “avô” da geração de músicos em que ele se inclui, na qual estão Chico Buarque, Edu Lobo, Toninho Horta e Milton Nascimento. “Milton Nascimento é o Villa pesquisador, que andava nas matas e igrejas”, compara. Segundo Guinga, no Brasil, Villa-Lobos talvez só não tenha influenciado Ernesto Nazareth, Pixinguinha e Dorival Caymmi, que tomaram caminhos musicais diferentes. “Você ouve Pixinguinha e não ouve Villa. Mas ouve Villa e ouve Pixinguinha. O mesmo ocorre com Nazareth e Caymmi”.
Entre a erudição de Heitor Villa-Lobos e o lirismo do subúrbio, Guinga gravou oito canções (Mar de Maracanã, Porto de Araújo, Capital, Via Crucis, Maviosa, Tudo fora do lugar, Casa de Villa e Contenda) e quatro faixas instrumentais (Villalobiana, Bigshot, Jongo de compadre e Comendador Albuquerque) no álbum que marca a sua estréia na Biscoito Fino. Sem fazer letras de música desde que conheceu Paulo César Pinheiro, aos 18 anos, no ano passado, ao refazer o percurso Leblon/Rodoviária/Central/Xerém, entre a zona Sul e o subúrbio carioca, para jogar futebol, Guinga fez da toada Maviosa. O resultado é
um verdadeiro inventário da viagem, revelando a relação afetiva que mantém com personagens e a natureza de Santa Cruz da Serra, onde ele vai religiosamente há 31 anos nos finais de semana. O compositor foi criado na Vila Valqueire, em Jacarepaguá onde fica o lugarejo que tem ligação direta com a Baixada Fluminense.
Além de parceiros mais antigos (Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc) e de Simone Guimarães, no novo disco ele inaugura parcerias com Edu Kneip, Mauro Aguiar e Thiago Amud. “Não interessa se são famosos, vi logo talento neles”, diz. “A vida é assim, se puder unir, quem sai ganhando é você mesmo”, acrescenta. O produtor Paulo Albuquerque, que morreu no final do ano passado, é homenageado em Comendador Albuquerque, que ele conheceu em vida. Marcus Tardelli, que Guinga produziu em Unha e carne, de 2005, é o produtor de Casa de Villa. Nele, pela primeira vez, também, o compositor canta todas as faixas letradas
de um disco. “O compositor ensina o não-cantor a se manifestar melhor”, diz Guinga, admitindo que, absorvida a obra, o público passa a gostar da voz do cantautor, que é como ele se define. Já a alma da cantora é diferente. “Ela é reveladora”, garante ao citar musas e divas que gravaram canções de sua autoria.
“Dava a vida para ver Leila Pinheiro fazer um novo Catavento e girassol”, confessa o compositor, lembrando que desde Miúcha, Fátima Guedes e Elis Regina já havia cantoras querendo gravar a sua obra no atacado. Impressionado pela voz de Paula Santoro desde que a ouviu pela primeira vez em um programa de TV, ao ouvir elogios da intérprete à sua música ele não se intimidou em dizer a ela que cantasse suas canções. Resultado: em pouco tempo Paula já está cantando mais de 30 músicas de Guinga, resgatando inclusive inéditas do baú que ele e os parceiros já nem lembravam mais. Apesar de cultuado como instrumentista, o carioca garante que ele é um compositor instrumental circunstancialmente.
“Nasci e vou morrer compondo canções”, conclui para o delírio de intérpretes como Paula Santoro. Segundo a cantora mineira, além do dueto em outras faixas de Casa de Villa, no show eles aproveitam para trazer à toma pérolas que ela resgatou ao pesquisar o repertório de Guinga. “Não se trata de revisitar esta obra, mas descobri-la”, informa. Paula revela que há verdadeiras maravilhas no baú de Guinga e seus parceiros, como o Bolero de Satã, lançado por Elis Regina em 1979. “A gente timbra muito bem”, reconhece a intérprete, lembrando que ela e Guinga não tiveram de alterar o tom das canções para os
duos e solos que vão fazer ao vivo. De Belo Horizonte, o show segue para Teresina, Piauí, e outras capitais brasileiras, antes de ser apresentado na Europa, em julho.

 
07/11/2006
Na sua última turnê pela Itália, Guinga foi surpreendido no camarim. É que os integrantes do grupo Manhattan Transfer fizeram uma bela homenagem ao compositor, que já tem músicas suas no setlist do grupo.
 
23/05/2006
Guinga é capa da primeira edição da revista Violão Pro. Veja clicando aqui.
 
14/03/2006
Matéria publicada no Jornal "Estado de Minas"

UNHA E CARNE
Ex-integrante do grupo Maogani, o violonista Marcus Tardelli lança, pela gravadora Biscoito Fino, um álbum dedicado à obra de Guinga, que tem apenas elogios para o amigo e discípulo

Ao mestre, com carinho
(AILTON MAGIOLI)

Apesar de até então integrar os planos do compositor e violonista, Unha & carne, que o violonista fluminense Marcus Tardelli, de 28 anos, gravou com a obra de Guinga, de 55, é o retrato retocado da alma do artista, segundo revela, emocionado, o próprio Guinga. “Tenho visto os grandes inventores do violão em ação, mas o Tardelli, realmente, tem um componente a mais. Depois de ouvi-lo fica sem sentido fazer um disco com a minha obra”, afirma o artista carioca, responsável pelo convite ao discípulo para que ele gravasse o CD.

Ex-integrante do grupo Maogani, Marcus Tardelli estréia carreira solo em grande estilo,
realizando um desejo de infância. “As circunstâncias me tornaram um solista”, confessa o
violonista, natural de Petrópolis. Apesar da formação autodidata, Tardelli acabou graduando-se em violão na escola de música da UFRJ. Além da liberdade para escolha do repertório, que passa por toda a obra de Guinga, Marcus Tardelli ainda ganhou de presente do mestre a valsa inédita que batiza o disco, além de um violão do luthier Lineu Bravo, mineiro de Conceição do Mato Dentro, para tocar durante a gravação.

MÃO ESQUERDA
Com sete discos solos, a maioria na Velas,Guinga aguarda a rescisão do contrato com a gravadora de Vitor Martins para fazer um novo trabalho. “O contrato terminou há um ano e acho que eles já podiam ter me liberado. Foram 15 anos na empresa e acho que este é o momento de mudar. Às vezes o jogador tem de mudar de clube para oxigenar”, diz Guinga, que,antes de Unha & carne, teve a parceria com o letrista Aldir Blanc registrada em disco por Leila Pinheiro no elogiado Catavento e girassol.
Baião de Lacan, Igreja da Penha (Carta de pedra), Capital, Unha & carne, Cheio de dedos,
Cine Baronesa, Mingus samba, Dichavado, Constance, os potpourris Baiões (Influência de Jackson/Nítido e obscuro/Geraldo no Leme/Pra Jackson e Almira/Chá de panela/ Dá o pé, loro) e Frevos (Vô Alfredo/Henriquieto) e a série Expressões do choro (Choro-canção, Choro-tango, Choro-réquiem) integram o repertório do disco de Tardelli. Segundo Guinga, a seleção mantém o equilíbrio dos aspectos rítmico e melódico de sua obra. “Claro que falta muita coisa, mas o disco ficou a minha cara. Tem o meu pensamento violonístico, o meu sentimento. É o retrato retocado da minha alma”, emociona-se Guinga. “A solução é ele gravar um segundo volume”, sugere, listando Melodia branca, Comendador Albuquerque,
Di menor, Di maior e a valsa Caiu do céu como peças prováveis do disco.
Na opinião de Guinga, o diferencial de Marcus Tardelli reside reside na mão esquerda. “O que ele faz com ela é praticamente impossível para os violonistas que estão aí. Tardelli é o penúltimo dos moicanos, não sei se vai aparecer outro como ele. A mão esquerda dele realmente é um componente a mais dentro do violão. E não sou só eu quem diz isso, o Alieksey Vianna, por exemplo, diz que nunca viu nada igual”, empolga-se, informando
ter havido fila na casa de um amigo dele, em Boston, nos Estados Unidos, para ouvir
Unha & carne. Segundo Guinga, o violão de Tardelli é revolucionário. “Ele possui emoção e invenção que ninguém tem no instrumento”, diz.

Influência dos clássicos
“Tudo o que Guinga compõe passa pelo violão”, ressalta Marcus Tardelli, feliz com o “presente” que marca a estréia na carreira solo. Apesar da liberdade para a escolha do repertório, o violonista fluminense diz que fez questão de que Guinga acompanhasse a elaboração de todos os arranjos. “Queria que a obra dele continuasse sendo dele”, diz, justificando o cuidado. “A intenção é mostrar as variadas caras de sua obra, de estilo
harmônico muito forte”.
Segundo Tardelli, a influência da música erudita na música do mestre é perceptível. “As valsas, por exemplo, têm muito do impressionismo. Sinto que ele tem influência forte de Villa-Lobos, também. Além de profunda, a obra de Guinga é bela e, ao mesmo tempo, original”, diz o discípulo. Em 31 deste mês, Marcus Tardelli vai participar de uma noite de autógrafos do disco no Museu Villa-Lobos. Em abril, fará curta temporada de lançamento
de Unha & carne no Mistura Fina, do Rio de Janeiro, seguindo para Curitiba , para o
projeto Violão Brasileiro, em 31 de maio. Em junho, o violonista vai dar início à turnê internacional, se apresentando no Spoleto Festival, de Charleston, nos Estados Unidos, e em um evento jazzístico em Santiago, no Chile. Embora não possua repertório próprio, ele não descarta a possibilidade de registrar as composições de sua autoria em disco, mais tarde.

 
11/10/2005
Matéria publicada no Jornal "O Globo" - Rio de Janeiro
 

 
19/09/2005
Matéria publicada no site "Sintonia Fina", de autoria do compositor Nelson Motta
 
Guinga, o homem da fronteira
 
O homem é um monstro. Do bem. É, com licença de Edu Lobo e Milton Nascimento, o maior dos pós-jobinianos em atividade. Não fosse pelo próprio Tom Jobim, também seria o maior pós-pixinguiniano da atualidade. E como Tom, ele ama Villa Lobos, que amava Pixinguinha, que amaria Guinga, se o ouvisse. Sei lá, quem sabe até ouve.

Por incrível que pareça, nunca havia visto e ouvido Guinga ao vivo.

O lugar para esta inesquecível primeira vez não poderia ser mais adequado: o auditório do Instituto Moreira Salles, no alto da Gávea, com suas cento e poucas confortáveis poltronas ocupadas pelo público educado e discreto que ouviu Guinga em silêncio reverente para depois saudá-lo com aplausos selvagens. De bônus, as cortinas da parede lateral envidraçada foram levantadas para revelar o cenário do esplêndido jardim iluminado.

No palco, um dentista cinqüentão nascido no subúrbio, criado na Zona Norte e morador do Leblon há 20 anos. Ele e seu violão. E sua música assombrosa. Durante toda sua vida ele viveu essa estranha vida dupla, de dia arrancando dentes, fazendo restaurações e dando anestesias e À noite se transformando no solitário compositor e violonista que cria melodias e harmonias na fronteira entre o popular e o erudito e tem entre seus maiores admiradoras justamente os mais admirados músicos pós-jobinianos como Edu e Milton.
É exercício vão tentar catalogá-lo ou enquadrá-lo em escolas ou movimentos, é autodidata, avançou por trilhas musicais que se misturam aos caminhos de Tom Jobim, Pixinguinha e Villa-Lobos, é a fronteira viva entre o clássico e o popular, entre o jazzístico internacional e o melhor samba, choro e canção brasileiros.

O homem é um monstro. Um doce monstro, no início nervoso e desconfortável no palco, ansioso para mostrar a sua música, seu dom, sua razão de viver. No final, cercado de aplausos e grata admiração da platéia, chegou a contar piadas. Um homem adorável em sua fragilidade e na extraordinária força de sua arte, na sua reverente admiração pelos mestres, no seu respeito aos colegas e ao público. E as músicas?

Começou com duas instrumentais intrincadas e cheias de sutilezas e surpresas. Depois chamou o magnífico trompetista Jessé Sadok e, juntos, em perfeita integração, tocaram uma série de blues, choros, sambas, canções, ou misturas de tudo isso, que maravilharam o público. Não, não se parecem com nada essas canções, são modelos originais na vertente da mais refinada e sofisticada do que se tornou conhecido como MPB. Não dá para falar, só ouvindo.
 
 
 
07-05-2005
Leia a matéria sobre o Guinga no New York Times clicando no link "mundo"
 
 

Virtuoses do inusitado
Paulo Sérgio Santos e Guinga se apresentam com Hermeto Pascoal no CCBB

HELENA ARAGÃO (publicado no JB on-line de 01/03/2004)
Foto de João Paulo Engelbrecht


Hermeto(D) faz do clarinete um guidon e usa, com Paulo Sérgio Santos (E) e Guinga,
o penico como capacete

Num país onde caixinha de fósforo já é popular instrumento de batuque, um músico de barba branca e vitalidade de garoto, apesar dos 68 anos, espalha sua cartilha de mensagem simples: tudo se experimenta, nada é proibido, desde que produza barulho interessante. Ao longo do mês, Hermeto Pascoal – o bruxo, na definição de muitos – vai demonstrar estes ensinamentos no palco do CCBB do Rio. Ele é a inspiração da série Até pinico dá bom som, que inaugura hoje, tendo Guinga e Paulo Sérgio Santos como convidados. Nas próximas semanas, o palco será ocupado por outros admiradores do feiticeiro: Naná Vasconcelos, Uakti, Badi Assad e Barbatuques.
A homenagem a Hermeto já é explícita no título da série, tirado de uma frase da canção Chá de panela, que Aldir Blanc e Guinga fizeram sobre o processo de criação do bruxo. O letrista tem participação indireta no projeto: autorizou o uso da frase, com a condição de que “pinico” saísse assim, com i mesmo. Dentro do espírito anárquico da licença poética, as três feras em seus instrumentos – Guinga no violão, Paulo Sérgio no clarinete e Hermeto... bem, no piano, na escaleta, nos bonecos de plástico e no que mais pintar – vão mostrar que a originalidade pode ter variadas facetas.

"Clarinete e violão são instrumentos caretas só para quem é careta. O Guinga e o Paulo Sérgio nunca tocam uma música da mesma maneira, não são convencionais", explica Hermeto, que em seguida pega o clarinete de Paulo e começa a tocá-lo de cabeça para baixo.

O histórico de Guinga ao lado do compositor alagoano teve início em 1988, quando subiu a um palco como solista pela primeira vez, no Circo Voador ao lado de Hermeto. Os dois chegaram a fazer uma temporada juntos no Rio, nos anos 90.

"Vou relembrar a primeira visita que fiz ao Jabour (bairro da Zona Oeste do Rio onde Hermeto morava) tocando meu choro Picotado, que apresentei a ele naquele dia", adianta o violonista.

Lembranças musicais foram a tônica do ensaio da última sexta-feira, que contou com um Hermeto incansável, um Guinga falante e gargalhante como nunca, e um Paulo Sérgio mais contido, mas tão empolgado quanto os demais.

"É o ensaio mais louco que já vi", comentou Paulo, ao ser intimado a colocar um penico na cabeça e ver seu clarinete virar guidon de motocicleta nas mãos de Hermeto. Tudo isso para a sessão de fotos.

Diferente de Guinga, Paulo nunca se apresentou junto com o mestre. O máximo que fez foi abrir um show dele, com seu Quinteto Villa-Lobos. Mas sempre foi um dos freqüentadores da casa do Hermeto, onde ganhou mais do que intimidade. Ao chegar no ensaio, tirou da pasta uma partitura que viu o mestre criar para ele num desses encontros, em 1998: uma peça para clarinete solo, batizada somente agora com o nome Paulinetando.

O que vai entrar no repertório do show, só Deus sabe. Guinga mostrou dois choros novos de sua autoria, e também tocou composições que conheceu no Jabour – sempre de cabeça, já que não lê partitura.

"Rapaz, nem me lembro disso. É meu"?, perguntou Hermeto, curioso.

O diálogo faz pensar em quantos shows seriam necessários para que o público conhecesse as músicas que Hermeto fez assim, espontaneamente, para seus convidados. Mas os tempos são outros. A tradição dos saraus musicais do Jabour foi quebrada há dois meses, desde que o Bruxo se mudou para Curitiba para morar com a namorada, Aline Morena, uma cantora paranaense de 24 anos.

"Disseram que me mudei há mais tempo, que falei mal do Rio. Não foi nada disso. A violência teve um pouco a ver com a minha partida, mas é claro que não foi o motivo principal. Minha família continua morando no Jabour".

Mais magro, com menos shows agendados, Hermeto tem se dedicado à criação no apartamento em que vive com Aline. Acompanha os progressos da namorada ao piano, ensaia com ela para um show em São Paulo e prepara um novo livro de partituras, ao estilo do seu Calendário do som, lançado em 2000. Quando tem tempo, faz exercícios físicos numa esteira. Isso quando consegue se manter disciplinado ao ouvir os “barulhos maravilhosos” que a geringonça faz.

Brincadeiras à parte, os três voltam a falar sério quando o assunto é trabalho. Sobretudo quando a cantora Monica Vasconcelos, uma brasileira residente em Londres que assistia ao ensaio a convite de Guinga, aproxima-se do bruxo e comenta:

"Quando falo com o Chick Corea e pergunto que músico ele mais admira no Brasil, ele responde: Hermeto. Faço a mesma pergunta ao Marsalis e ele responde: Hermeto".

"Então faz um favor. Peça para eles falarem isso quando vierem ao Brasil", respondeu o bruxo, de pronto.

Ele não faz troça. Se é ídolo de muitos brasileiros – e a garotada que freqüenta seus shows confirma isso –, continua, paradoxalmente, pouco ouvido em disco por aqui

Guinga e Paulo Sérgio, amigos de longa data, também têm hoje uma carreira internacional cada vez mais consolidada. Com um disco recém-lançado na praça (Noturno Copacabana), Guinga acaba de voltar de uma turnê americana, e em breve vai para a Europa. No Brasil, fez poucos shows de lançamento, em São Paulo e Paraty, por exemplo. No Rio, os fãs ainda estão à espera.

"Até agora não consegui agendar nada", lamentou.

Paulo tem mil projetos na cabeça. O próximo a se realizar será também internacional: um disco com o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi – com quem Guinga também gravou recentemente – e o violonista Zé Paulo Becker.

Fim de conversa, volta ao ensaio. Diferente do amigo Paulo, Guinga diz que não tem coragem de experimentar novos instrumentos ou ou tentar tirar som de objetos. Mas pouco depois arrisca-se a fazer som com o penico, que tira da cabeça, às gargalhadas. Sob a batuta de Hermeto, só pára quando o mestre dá a deixa:

"É bom não ensaiar muito para ficar melhor"!

 
Crítica publicada no Site"Bravos Atores" - 26 de outubro de 2003
(publicação no site gentilmente autorizada pelo autor, Daniel Maia)
A Música Brasileira vai muitíssimo bem, obrigado. O lançamento recente de Guinga é redentora prova de garantias de profundo deleite. Guinga, sempre afiado nas sofisticadas construções harmônicas e no violão virtuoso, agora canta com desenvoltura e personalidade como nunca em seu “Noturno Copacabana”. As instrumentais ‘Garoa e maresia’ e ‘Depois do sonho’ nos levam a viagens cinematográficas guiadas pelos sopros magistrais de Paulo Sergio Santos e Proveta. Guinga abusa de sua voz rouca no delicioso ‘Abluesado’ com letra de Aldir Blanc. O bom humor e o cotidiano que permeiam a obra de Guinga são ponteados por arranjos de madeiras e metais malemolentes e estão presentes no samba-embolada “Desavença” e em “Concubinato”.
 
Crítica publicada no Jornal "O Globo" - 20 de outubro de 2003 - Versão on line
(publicação no site gentilmente autorizada pelo autor)
'Noturno Copacabana', Guinga (Velas)
por Leonardo Lichote
Copacabana cabe toda neste CD - não como parte da cidade, mas, como o compositor defende, bairro-síntese, a tal aldeia que reflete o mundo. Em suas melodias, o violonista passa pela tranqüilidade do mar que alivia o porre ("Garoa e maresia"); pelo movimento nervoso de pivetes, camelôs e banhistas ("Dichavado" e "Pra Jackson e Almira"); pela sordidez da noite do calçadão ("Noturno Copacabana"); pelos pequenos dramas do interior dos apartamentos ("Canção desnecessária" e "Concubinato"). Os letristas acompanham. Aldir Blanc aponta o parentesco entre blues e samba-canção em "Abluesado". Paulo César Pinheiro pinta uma mulher de bruma em "Senhorinha". Simone Guimarães enche de humor o malicioso coco-choro "Desavença". "Iara", outra Princesa do Mar, é retratada por Luis Felipe Gama. Francisco Bosco cumpre a difícil missão de resumir tudo, em "Noturno Copacabana". As convidadas Leila Pinheiro, Fátima Guedes e Ana Luiza (estreante) dividem vocais com Guinga - de voz vacilante, mas canto cada vez mais seguro. O CD é cobertura de luxo, com vista para a frente e para os fundos.
 
GUINGA, O GRANDE
Compositor lança Noturno Copacabana, seu sexto CD
por Flávia Souza Lima
(publicação no site gentilmente autorizada por ZIRIGUIDUM.COM)
Guinga, o indiscutivelmente genial compositor carioca (perdão, leitores, pelo inevitável lugar-comum) passa por uma fase especial em sua carreira que, poucos sabem, já tem mais de três décadas. O artista conjuga o lançamento de seu sexto CD, Noturno Copacabana, com uma viagem à Itália, convidado para ministrar workshops durante a próxima quinzena. Noturno Copacabana (Velas), assim como os anteriores, é ansiado por boa parte da imprensa e dos músicos antes mesmo de chegar ao mercado. Ouvir um CD de Guinga é como receber um mapa do tesouro. No final do percurso entremeado de surpresas sensoriais - sim, pois a música de Guinga tem densidade, aroma, sabor e imagem -, é certo haver encontrado o pote de ouro.

Noturno Copacabana é, antes de tudo, uma viagem pela alma do compositor. Modinha, valsa, choro, baião, lundu (!) e uma miríade de ritmos trespassam Copacabana e desembocam no melhor porto da atual música brasileira: o violão de Guinga, filho do subúrbio e afilhado das praias do Rio de Janeiro. São 14 faixas, seis parceiros, três cantoras convidadas, um punhado de excelentes músicos e incontáveis momentos de emoção. Boa viagem.

Simone Guimarães, cantora e compositora paulista - da melhor estirpe - a quem Guinga considera "um gênio", co-assina três faixas e mostra que tem fôlego de sobra para muitas mais ao lado do compositor. Na 'amaxixada' (seria um xaxado? Teria um viés de maracatu?) Desavença, conta a história de um certo Popoto e sua viola; no baião Pra Jackson e Almira, homemageia o impetuoso pandeirista a partir do acróstico "Para Jackson do Pandeiro e Almira esta homenagem"; no lundu Rasgando Seda, celebra a música de Guinga ("tu és o anjo novo da canção"). Pena não ouví-la ao seu lado em nenhuma faixa.

Luís Felipe Gama se mostra profícuo letrista, basta conferir o choro Silêncio de Iara, que ganhou bela interpretação da cantora paulistana Ana Luiza. Mauro Aguiar soa divertido em Concubinato (que traz Guinga e Fatima Guedes em hilária dobradinha) e comovente na valsa Canção Desnecessária ("abrace o precipício / e valse a valsa imersa / num silêncio insano"). Letrada por Francisco Bosco, a faixa-título traduz o clima do desejo que pulsa na noite em imagem talvez naturalista demais para o lirismo do conjunto ("noite à beira-mar / homens vêm montar / centauros de silicone / por cem reais / nalgum motel").

Aldir Blanc, mestre e parceiro de grande parte da safra recente de composições de Guinga, faz literal gol de letra em Abluesado, trançando paralelos entre o blues e o samba-canção ("um é azul e triste / o outro reza e peca"). Paulo Cesar Pinheiro, primeiro parceiro constante de Guinga, paira emocionante em Senhorinha, com pungente interpretação do músico. Fonte Abandonada, outra composição da dupla, dificílima valsa que amargou 20 anos de gaveta, é molhada pelo som do Quarteto de violões Maogani e pela voz de Leila Pinheiro, cantora que já dedicou um de seus discos - o estupendo Catavento e Girassol (EMI, 1996) - à obra de Guinga e Aldir Blanc.

Não bastasse o selecionado das cordas que estofam com tecido fino O Silêncio de Iara, Depois do Sonho e Rasgando Seda, Noturno Copacabana traz ainda primoroso escrete de sopros. Em Garoa e Maresia, tema instrumental que descortina o CD, rebentam as notas de Carlos Malta (flautas), Paulo Sérgio Santos (clarinetes) e Jessé Sadoc (flugelhorn) - além das cordas cruzadas de Guinga (violão), Lula Galvão (guitarra) e Jorge Helder (baixo). Os sopros também dão o tom de Abluesado, com o trombone de Sérgio de Jesus mais sax e clarinete de Paulo Sérgio Santos. Nailor Proveta (sax alto) sobre a cama de cordas realça Depois do Sonho. Na mezzo-sorumbática mezzo-sedutora faixa título, é o trompete de Jessé Sadoc rasgando a noite do bairro até o lento amanhecer em frente ao mar que banha Copa.

Ao ouvinte emocionado, resta o êxtase. E a certeza de ouvir a música de um gênio.